Porque janeiro não é o verdadeiro início do ano
Durante muito tempo, acreditei que janeiro era sinónimo de recomeço. Um novo ano, novas metas, novas versões de nós. Havia entusiasmo, listas, intenções bem definidas e, ainda assim, algo não encaixava. O corpo parecia não acompanhar a pressa, a energia não estava disponível e , muitas vezes, a frustração chegava antes da mudança.
Com o tempo, fui percebendo que talvez o problema não estivesse na falta de disciplina ou de força de vontade. Talvez estivesse no momento em que escolhemos começar.
Porque, afinal, janeiro não é o verdadeiro início do ano.
O verdadeiro início do ano segundo os ciclos naturais
A forma como medimos o tempo no Ocidente é linear. O ano começa a 1 de janeiro e termina a 31 de dezembro, sempre igual, sempre fixo. Mas a natureza não funciona assim. A natureza é cíclica, gradual e profundamente orgânica.
Quando começamos a observar os ritmos naturais, percebemos que nada começa de forma abrupta, as transições são lentas. Há um antes, um durante e um depois. Tal como acontece com as fases da Lua, que não saltam de Lua Nova para Lua Cheia de um dia para o outro.
No calendário chinês, o início do ano está ligado ao ciclo solar, não a uma data fixa. Por isso, o ano começa entre os dias 3 e 5 de fevereiro. Este momento marca também algo muito importante: o início da primavera.
Não da primavera florida e exuberante que associamos a março ou abril, mas da primavera enquanto princípio. O momento em que algo começa a despertar, ainda sem se mostrar.
O calendário chinês e o início da primavera
No pensamento oriental, as estações não começam num único dia. Elas têm início, meio e fim. São processos, não marcos rígidos.
O início da primavera é subtil. Manifesta-se de forma quase invisível:
- os dias começam a ficar ligeiramente maiores
- a terra continua fria, mas já fértil
- as sementes preparam-se para germinar
- as árvores despertam por dentro antes de mostrarem folhas
Nada é imediato, nem aceleradom e ainda assim, o ciclo já começou.
Este conceito foi um dos que mais me marcou quando comecei a estudar a Astrologia do Ki e os ritmos da natureza. Perceber que o início não precisa de ser exuberante para ser válido muda completamente a forma como olhamos para os nossos próprios processos.
Porque janeiro nos pede recolhimento, não mudança
Energeticamente, janeiro ainda pertence ao inverno. Uma estação associada ao recolhimento, à pausa, à integração e ao descanso. O corpo pede abrigo, o ritmo abranda, a energia está mais voltada para dentro.
E, no entanto, é neste mês que nos exigimos grandes mudanças. Queremos novos hábitos, novos corpos, novas rotinas, novas versões de nós. Criamos expectativas elevadíssimas num momento em que a natureza faz exatamente o oposto.
Não é coincidência que muitas resoluções caiam por terra poucas semanas depois. Não é falta de compromisso ou fraqueza, é desfasamento de ritmo.
Percebi isto muito claramente na minha própria experiência. Houve um período em que tentei forçar mudanças profundas em pleno inverno. Alimentação, treino, rotinas. O corpo simplesmente não acompanhou. Estava cansado, fragilizado, a pedir pausa.
Meses mais tarde, já com os dias maiores e a energia diferente, essas mesmas mudanças aconteceram quase sem esforço. Porque o tempo certo faz toda a diferença.
Inícios lentos também são inícios
Vivemos numa sociedade que nos pede para estar constantemente em modo expansão. Sempre produtivos, sempre disponíveis, sempre prontos para avançar, como se tivéssemos de viver numa primavera permanente.
Mas a natureza ensina-nos outra coisa.
Os inícios são lentos, os começos são discretos, e nem tudo floresce no momento em que é plantado.
O início da primavera traz entusiasmo, mas também instabilidade. Dias de sol e dias de chuva. Vontade de avançar e necessidade de parar. Tudo isso faz parte do processo de ajustamento.
Quando tentamos saltar estas fases, criamos frustração e quando as respeitamos, criamos solidez.
Como viver em sintonia com os ciclos na vida real
É claro que nem todos podemos ajustar horários, trabalho ou responsabilidades aos ritmos naturais. A vida real tem exigências muito concretas, mas há algo que está sempre ao nosso alcance: as expectativas que colocamos sobre nós.
Talvez este não seja o momento de mudar tudo, talvez seja apenas o momento de escutar e de plantar uma intenção, sem a pressionar.
Respeitar os ciclos não é fazer menos, é fazer melhor, no tempo certo.
Quando começamos a viver desta forma, tornamo-nos mais gentis connosco e mais atentos ao corpo. Mais alinhados com o nosso próprio ritmo e isso, por si só, já é profundamente transformador.
Um convite para este novo ciclo
Se janeiro não é o verdadeiro início do ano, então talvez possamos libertar-nos da pressa. Talvez possamos permitir que os começos sejam mais suaves, mais conscientes e mais enraizados.
O verdadeiro início acontece quando algo desperta por dentro, mesmo que ainda não seja visível por fora e talvez seja aí que tudo começa de verdade.
Este artigo nasce a partir do Episódio 1 do podcast Elemento Ki, onde aprofundo esta relação entre o tempo, os ciclos da natureza e a forma como nos podemos alinhar com eles de forma mais consciente.
Se quiseres mergulhar ainda mais fundo nesta reflexão, podes escutar o episódio completo do podcast aqui: Elemento Ki – Episódio 1


Add comment